Semana passada, uma leitora me mandou um áudio desesperada: entrou em um grupo de vendas de ingressos para um show em São Paulo e o administrador ameaçou "rastrear o IP de todos" caso alguém fizesse golpe. Ela apagou a conta na hora, achando que o dono do grupo agora tinha o endereço da casa dela. Esse pânico é comum, mas tecnologicamente infundado na maioria dos cenários do Telegram. O aplicativo até 2026 avançou muito em criptografia, mas a confusão entre o que a empresa vê, o que o administrador vê e o que é enviado via P2P (Ponto a Ponto) continua gerando medo desnecessário.
O problema não é o app em si, mas sim a falta de entendimento sobre onde a conexão para de ser "servidor" e passa a ser "direta". Vamos dissecar isso sem papo de marketing de segurança.
Mito: O dono do grupo vê o IP de quem entra
A crença de que criar um grupo no Telegram dá superpoderes de "hacker" ao criador é a falácia número um. Em grupos comuns, canais e até mesmo em "Grupos Supervisionados" (aqueles com moderação mais rigorosa e ferramentas de análise de conteúdo), o fluxo de dados não passa diretamente entre os usuários.
Toda mensagem que você envia para um grupo vai primeiro para os servidores da Telegram FZ-LLC (sediada em Dubai). De lá, ela é distribuída para os outros membros. O administrador enxerga o seu nome de usuário, seu ID (se você tornou público ou se ele é o dono do bot que te adicionou) e o conteúdo da sua mensagem. Ele nunca recebe o pacote de dados contendo o seu endereço IP. O único ente capaz de cruzar seu IP com sua conta é a própria Telegram, mediante ordem judicial ou violação de seus Termos de Serviço.
Isso muda radicalmente de figura quando falamos de privacidade profissional. Se você tem medo de ser encontrado por grupos de discussão, o risco é menor do que, por exemplo, deixar seu perfil aberto para recrutadores agressivos no LinkedIn. Muitas pessoas não sabem, mas o controle de visibilidade lá é até mais invasivo se não configurado direito, como expliquei ao analisar o que acontece quando você desativa a 'disponibilidade para oportunidades' no LinkedIn?. No Telegram, o anonimato perante outros membros é a regra, não a exceção.
Verdade: O risco real está nas Chamadas de Voz P2P
Aqui onde a engenharia do app pega muita gente de surpresa. Diferente dos chats de texto, as chamadas de voz do Telegram funcionam, por padrão, usando tecnologia Peer-to-Peer (P2P). Isso significa que o áudio trafeta diretamente do seu dispositivo para o dispositivo da outra pessoa, sem passar pelo servidor da Telegram como intermediário naquele momento específico.
Para que essa conexão direta aconteça, o seu app precisa "dizer" ao app da outra pessoa onde você está na rede. Ou seja, seu endereço IP é revelado para a pessoa que você está chamando (ou que te chama). Em 2026, isso ainda é o padrão para garantir menor latência e melhor qualidade de áudio, especialmente em conexões 4G ou 5G instáveis no Brasil.

Se você está em um grupo de debate político acalorado e decide resolver a discussão numa chamada particular com um desconhecido, esse desconhecido pode, sim, anotar seu IP. Com esse número em mãos, ele não descobre sua casa "no GPS", mas consegue saber sua cidade (pela geolocalização do IP) e tentar ataques DDoS na sua conexão doméstica, o que derrubaria sua internet por alguns minutos — um incômodo, mas não um sequestro de dados.
A solução é simples e já está disponível há anos, mas ninguém usa. Vá em Configurações > Dados e Armazenamento > Chamadas e ative a opção "Ninguém" ou "Todos, mas use conexão peer-to-peer apenas para contatos". Isso força a chamada a passar pelos servidores do Telegram, escondendo seu IP, embora possa gastar alguns megabytes a mais do seu pacote e deixar o áudio levemente pior em zonas rurais.
A confusão entre Grupos Supervisionados e Chats Secretos
Outro ponto técnico que gera ansiedade é a diferença funcional entre a criptografia padrão (Server-Client) e os Chats Secretos (End-to-End). Em grupos supervisionados, onde bots e moderadores humanos atuam para manter a ordem, existe a sensação de que "alguém está lendo tudo". A verdade é que sim, os moderadores leem as mensagens textuais, pois eles são membros do grupo como qualquer outro, só que com permissões de banimento.
No entanto, isso não é quebra de criptografia. Eles leem porque a mensagem foi descriptografada para o grupo. A grande confusão é achar que o Telegram é "inseguro" porque não é tudo E2E (End-to-End) por padrão. Ele é seguro contra curiosos, mas acessível à empresa (e, portanto, à lei) se necessário.
Já os Chats Secretos são uma outra besta. Eles não ficam na nuvem. Se você abrir o Telegram no notebook agora, os Chats Secretos do celular não estarão lá. Isso evita que ataques massivos aos servidores da Telegram vazem suas conversas íntimas. O custo-benefício aqui é de usabilidade: você perde o histórico ao trocar de aparelho, mas ganha imunidade contra o acesso remoto por parte da própria plataforma.

Para quem organiza eventos ou vendas, a opção por grupos comuns é muito mais prática que ferramentas "tradicionais" que expõem números de telefone. Muita gente ainda insiste no WhatsApp para listas de transmissão, sem perceber que a privacidade lá é quase nula se os grupos forem abertos. Listas de transmissão têm suas vantagens, mas o isolamento do número de telefone é um dos 3 motivos pelos quais a Lista de Transmissão do WhatsApp é melhor que grupos para convites, embora o Telegram faça isso nativamente sem precisar de truques.
O IP vaza por links curtos e bots
Você está imune a ter seu IP descoberto pelo administrador do grupo se não fizer chamadas P2P, mas isso não significa que você está 100% invisível. O vetor de ataque mais comum em 2026 não é a engenharia reversa do app, mas a engenharia social dentro dele.
Muitos grupos utilizam bots para automatizar sorteios ou verificações. Ao clicar em um botão "Iniciar" dentro de um bot duvidoso (prometendo gerador de pix ou envio de jogo pirata), você pode estar autorizando o acesso a dados que o bot coleta. Além disso, links encurtados (tipo t.me/xyz ou serviços externos de bit.ly) são armadilhas clássicas. Quando você clica, o servidor do link pode registrar seu IP antes de redirecionar para o conteúdo real.
É aqui que o comportamento do usuário importa mais que a tecnologia. O app pode blindar a conexão, mas não consegue blindar o clique impulsivo. Se você costuma clicar em tudo que aparece no feed de notícias, seu problema de privacidade vai além do Telegram. Isso lembra muito o dilema de manter o algoritmo limpo; assim como fiz ao resetar o algoritmo do TikTok para ver só vídeos de jardinagem e zero política, você precisa ser seletivo sobre com quem interage para não vazar pegadas digitais.
O que fazer de concreto hoje
Fechar a conta por medo de rastreamento em grupos é medida extrema e desnecessária para 99% dos usuários brasileiros que usam o app para entretenimento, trabalho ou estudos. O administrador do grupo de "Vendas de Sneakers" não tem seu IP. O moderador do canal de notícias sobre criptomoedas não sabe onde você mora. A segurança do Telegram para o uso cotidiano é robusta, desde que você entenda que a "porta dos fundos" só se abre quando você estabelece uma conexão direta (chamada de voz) ou clica em links maliciosos.
O passo imediato é desativar as chamadas P2P para contatos que você não conhece pessoalmente. Isso elimina o risco técnico imediato. Depois, revise suas permissões de privacidade no menu para garantir que seu número de telefone não é visível para "Todos", apenas para "Meus Contatos". Ao tomar essas duas medidas, você transforma o Telegram de um "app espião" (na imaginação popular) para uma ferramenta de comunicação efetivamente anônima perante outros usuários comuns.
A privacidade digital não vem do app perfeito, mas da gestão consciente de quem tem acesso à sua conexão. O medo paralisante de ser rastreado em um grupo de discussão é, tecnicamente, um mito que só o seu clique descuidado pode transformar em realidade.